Já se perguntaram aonde vai parar o seu dinheiro? Aliás, dinheiro não pára, fica circulando continuamente, mas, apesar disso, podemos imaginar as conseqüências mais imediatas da forma como o empregamos.
Há algum tempo, era veiculado um comercial de televisão que mostrava o usuário de drogas como financiador do crime organizado. Era uma seqüência de cenas às avessas, começando dos efeitos e chegando nas causas. Esse é um exemplo da idéia, que quero discutir, de que o consumo influencia nossos destinos de formas indiretas, porém poderosas.
Pensando em um exemplo menos dramático, imagine aquela lojinha de produtos de informática que fica perto de sua casa. Um dia você passa lá e descobre que a variedade de produtos não é tão grande e o preço é ligeiramente maior que daquela loja grande perto do seu trabalho, lá no centro. Logicamente você prefere a do centro e compra lá sua placa vídeo nova. Depois de algumas semanas, para sua surpresa, a lojinha da sua rua está fechada. Tristeza. Menos uma opção, principalmente agora que você quer mais um pente de memória e estamos em pleno sábado.
Vemos que é possível estimular ou inibir as ações das empresas através do consumo. O consumidor, a rigor, manda no capitalismo. O problema é que esse consumo não é consciente. Na verdade, é a propaganda comercial que consegue dar alguma direção a esses milhões de mentes consumidoras. Não é preciso dizer que, nesse caso, o objetivo final é o lucro dos capitalistas e não o bem estar seu.
Vejamos alguns exemplos de aonde nosso dinheiro pode ir quando consumimos alguns produtos ou serviços:
- Lanchonete do seu Zé: o dinheiro vai pagar os funcionários; os fornecedores, de acordo com o produto e marca que você escolheu; uma parte vai para o bolso do próprio Zé, que será estimulado a manter ou aprimorar o negócio, pois este lhe dá lucro e que pode gastar ali perto, pois, provavelmente, mora próximo.
- McDonald’s: vai para os funcionários; para os fornecedores, que usam, no mínimo, vegetais transgênicos; para o dono, que paga franquia para o McDonald’s Brazil, que envia dinheiro para a matriz americana.
- Tênis Nike: um pouco para a loja onde você comprou; um tanto para o importador, que não afirmamos nada sobre ele; outro tanto para a fábrica, que na melhor das hipóteses fica nos EUA e traz o pão-da-cada-dia para algumas famílias do Texas, sei lá, e em outra hipótese, sustenta indonésios ricos que exploram trabalho escravo infantil.
- Notebook do Milhão: um pouco para a loja, é claro; um pouco pro Sílvio Santos; um tanto pro fabricante do hardware, que sei lá onde e como é feito (chineses escravos? proletários baianos?); um pouco para a empresa de software nacional que faz o jogo do milhão e outras coisas do tipo; um tanto para a empresa que fez o pedaço de software horrível que ocupa o espaço onde deveria estar um sistema operacional e tem sede em Redmond;
- Dér-partilha-por-um-real-do-menino-de-rua: uma parte para o garoto que vai achar que vale a pena continuar a vender balas no sinal; outra para o comerciante que tem loja atrás da Central; mais uma parte para a quadrilha que roubou a carga do caminhão; mais outro tanto para a prostituta da Vila Mimosa cujo cliente agia na quadrilha; ainda um tantinho para o que, na realidade, é cafetão que apenas diz alugar o espaço para as moças… Esqueçam! Viagei!
Esses exemplos podem não ser completos ou acurados, mas não devem estar muito longe da verdade. O mesmo exercício pode ser feito, sem contra-indicações, pelos caros leitores, no momento da escolha de suas próximas compras.
Segue uma lista de escolhas positivas e negativas pessoais minhas, por motivos diversos. Não quero dizer a ninguém o que fazer, mas só peço que fiquem de olho e consumam conscientemente. Adianto que se aplicarem o raciocínio das conseqüências a essas escolhas, podem discordar de mim em vários pontos.
- Compro: Tênis Rainha e Topper da loja da 28 de setembro; CD demo de banda de black metal que tocou no Garage; esfiha do Habbib’s ou Casa Pedro; sanduíche do Giraffa’s; televisor Gradiente com tecla SAP; celular Nokia, que, pelo menos, não é americano; revistas sobre história da Biblioteca Nacional; CD de * metal com o Márcio da Pedro Lessa, no centro; baixo Tagima; encordoamentos NIG; livros de autores clássicos em banca de jornal; pão sete-grãos Firenze;
- Não compro: Tênis Nike e All Star (mal-estar); celulares Motorola, que ainda por cima, tem usabilidade péssima; sanduíche de carne de minhoca do McDonald’s, que, aliás, fazem uns bons anos que não como nada de lá; parafernálias eletrônicas da Apple, a propósito, o Mac é um hardware caríssimo entupido de maldito software proprietário com todas as suas desvantagens; CDs de bandas americanas, pois eles não sabem fazer metal mesmo; baixos Fender, Gibson, etc; livros da seção de best-sellers, a não ser por engano, como verão em outro post; revista Veja, que é de extrema direita fazendo pose de imparcial;
Critiquem, por favor.
